Eu sempre gostei de carros. Desde pequena. Eu sempre gostei de ver como uma pessoa controlava todo aquele aparato, como aquilo era várias vezes maior que eu e me levava para onde eu queria. Eu sempre gostei de viajar de carro. Quando comecei a ir de van pro colégio, eu sentava na frente para ver o 'tio' dirigir e ficar observando os movimentos dele. Eu sempre gostei de carros.
É claro que todo esse gosto me despertou a curiosidade de dirigir no entanto todas as minhas tentativas eram respondidas com "você não tem 18 anos". Concluí: é preciso ser maior de 18 anos para que eu possa no mínimo manobrar um carro.
Então, respondi com retidão a esse preceito, esperei que meus 18 anos chegassem passando perrengue por perrengue, condução a condução e quando meus alcancei minha maioridade finalmente chegaram a resposta passou a ser "você não tem carteira". Logo, segui mais uma vez o que a lei queria.
Suei a camisa, ia ter aulas noturnas depois de um dia cansativo de faculdade, ficava esperando condução num ponto mal iluminado e tarde. Terminei as teóricas e fui pra prática, finalmente. Peguei passo a passo, aula por aula, tudo direitinho como manda o figurino. Aprendi tudo, nunca cometi um erro na direção. Dirigia com cautela, atenção, respeitando todos os limites. E como dirigir me fazia bem, todos os dias da auto-escola eram ótimos. Eu saia feliz mesmo que pegasse transito. Eu ficava feliz dirigindo.
Fiz a prova, com todo o nervosismo permitido. E por fim tinha a carteira. Enfim, tinha em mãos a liberdade de dirigir de forma cautelosa e responsável, por fim tinha a solução dos meus perrengues.
Tudo isso. Todos os perrengues que passei, eu passei pra dirigir dentro da lei.
Estava tudo bem até então. Aceitava tudo, tudo mesmo. Até o fato de que meu pai ia supostamente "me treinar" no carro dele, afinal eu tinha só alguns dias de carteira e isso era motivo pra ele desconfiar de mim.
Até que, em uma conversa informal eu percebi, que a questão que me atravessava era muito mais grave que uma simples diferença de embreagem. Era machismo, em sua pior forma. Foi numa conversa boba que descobri, que meu pai emprestava o carro dele pro meu primo (na época com 14 anos) dar 'umas voltinhas'. Meu primo, que não tinha 18 anos, que não tinha carteira, mas tinha o aval para dirigir.
Foi ai que comecei a me questionar: quem disse que um moleque de 14 anos tem mais direito de dirigir que eu? Quem foi o babaca que concluiu, que ele pode e eu não? Por que eu me submeto a "aulas" sendo que ele sem porra nenhuma dessas ia pra onde queria? Por que?
Comecei a confrontar diversas pessoas com essa situação e quanto mais mexia nisso mais a 'coisa' fedia. A resposta sempre caia na mesma máxima: "ele é HOMEM."
Ele. É. Homem.
Homem, com H maiúsculo. Homem que tem direito de passar na sua frente 4 anos. Homem que tem direito a direitos que você não tem, por que é Homem, tem H na frente. Homem que na cabeça dos outros nasceu "com o dom" pra dirigir. Não por que dirigi bem, é habilitado ou tem 18 anos, mas pura e simplesmente, por que é HOMEM.
Aquele mesmo que já dirigiu muitas vezes embriagado. Não respeitou os limites de velocidade. Deu dois PT's em dois carros. Esse mesmo Homem que fez tudo isso emprestava o carro pra outro, totalmente fora da lei.
Não sei se é possível descrever com palavras o tamanho da minha revolta.
A verdade é simples: pra mim, nunca fez diferença ter carteira ou não. Dirigir com cautela ou não. Se esforçar ou não. Eu nunca vou poder dirigir sem o aval de um homem. No momento do meu pai, mas quantas mulheres precisaram do aval do marido? Do tio? Sempre a figura de um homem diante da lei se mostra mais forte. Por que a carteira em mãos, a aprovação do governo feita, por que mesmo assim eu continuo dependendo da aprovação de um homem pra dirigir?
Mas afinal, quando se fala em trânsito é fácil encontrar atos machistas. "Mulher no volante..." "Mulher só nasceu pra pilotar..." E por ai se seguem, uma infinidade de xingamentos.
Por que me inserir num universo como esse? Pra que?
Prefiro seguir com minha condução, minha bicicleta, minha canela. Elas não me traem, não me deixam na mão. Não tomo multa.
E posso dirigir quando quiser, quanto tiver vontade. Livre como sempre fui e sempre me senti.